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Dez por cento de mulheres sul-africanas declaram ter praticado sexo anal nos últimos três meses
Roger Pebody, Thursday, November 05, 2009
Um inquérito transversal revelou que 14% de homens e 10% de mulheres heterossexuais na Cidade do Cabo, África do Sul, praticam relações sexuais anais. O preservativo é usado com uma frequência semelhante à do uso em sexo vaginal, segundo a edição online da Sexually Transmitted Infections.

O autor do estudo acredita que apesar do sexo anal precisar de ser abordado nas intervenções comportamentais, a sua contribuição para epidemia sul-africana é insignificante.

Todavia, os autores do editorial argumentam que esta conclusão é prematura e sublinham que o sexo anal não contabilizado pode enviesar os resultados dos ensaios clínicos com microbicidas.

As relações sexuais anais entre homens e mulheres não têm de forma geral recebido tanta atenção como o sexo anal entre homens. Contudo, existe evidência (especialmente nos Estados Unidos) de que este é praticado por um grande número de adultos sexualmente activos, o que sugere que pode desempenhar um papel importante na transmissão de VIH entre heterossexuais.

A investigação deste tópico nos países africanos tem sido limitada, apesar de um inquérito de grandes dimensões em sul-africanos entre os 15 e os 24 anos ter demonstrado que 3,6% da amostra tinha tido relações sexuais anais. Os homens jovens que declaravam ter sexo anal tinham mais probabilidades de estar infectados pelo VIH, de ter tido mais parceiros sexuais e de ter tido relações sexuais no mesmo período em que consumiam drogas e álcool. As mulheres jovens que declaravam ter tido sexo anal não tinham, no entanto, mais probabilidades de estar infectadas pelo VIH.

Para o novo estudo, Seth Kalichman e os seus colegas recrutaram duas amostras convenientes na cidade do cabo. Na primeira, 1 360 adultos foram recrutados numa clínica de infecções sexualmente transmissíveis bastante frequentada. Na segunda amostra, 3 051 adultos foram recrutados de locais públicos, tais como paragens de autocarros e ruas de comércio. Apesar de a primeira amostra ser predominantemente composta por homens, quase todos de etnia negra e africana, a segunda amostra era equilibrada dividindo-se igualmente entre homens e mulheres e entre pessoas de etnia negra africana e outras. A idade média dos participantes era de 30 anos.

Foi entregue aos participantes um questionário de auto-preenchimento (em Inglês, Xhosa e Africânder) que inquiria acerca dos comportamentos sexuais dos últimos três meses. Os 6% de homens que declararam ter tido relações sexuais com pessoas do mesmo sexo, naquele período de tempo, foram excluídos desta análise, dado que se centrava no sexo anal heterossexual.

Um total de 14% dos homens e 10% das mulheres declararam ter tido relações sexuais anais.

Mais de metade das pessoas que declararam sexo anal, tinham-no na mesma proporção que o sexo vaginal ou ainda mais frequentemente.

Os preservativos foram utilizados com quase a mesma frequência para o sexo anal do que para o sexo vaginal. Os homens declararam que o usavam em 75% das ocasiões em que tinham sexo anal (80% para o sexo vaginal), contudo as mulheres declararam o uso de preservativo em 50% das relações anais (57% sexo vaginal).

Determinados factores demográficos e comportamentais estavam estatisticamente associados ao sexo anal:

  • Sexo masculino

  • Idade mais jovem

  • Solteiro ou a viver com um parceiro

  • Mais parceiros sexuais

  • O uso de preservativo e o uso recente de preservativos para sexo vaginal

  • Infecções sexualmente transmissíveis

  • Sexo comercial

  • Uso de álcool e drogas

  • Teste de despistagem do VIH

  • Um diagnóstico positivo para o VIH

Todavia, os investigadores não apresentaram nenhuma análise multi-variável de forma a clarificarem os factores que eram independentemente associados ao sexo anal.

Seth Kalichman e os seus colegas concluíram que as relações sexuais anais são praticadas em “taxas relativamente baixas” por homens e mulheres heterossexuais e acreditam que o sexo anal é, provavelmente, responsável por um número pequeno de infecções na África do Sul.

Porém, um editorial de Marie-Claude Boily e dos seus colegas questiona estas conclusões. Questionam se os números apresentados por Kalichman são realmente “taxas baixas”, e sublinham que a sua revisão sistemática dos riscos revela que o sexo anal receptivo é aproximadamente vinte vezes mais arriscado para a infecção do VIH que uma relação sexual vaginal receptiva.

Adicionalmente, destacam que as pessoas que declararam ter tido sexo anal tinham mais probabilidades de ser seropositivas para o VIH e de ter mais parceiros sexuais nos últimos três meses, factores que amplificariam a contribuição do sexo anal para a epidemia sul-africana.

Argumentaram ainda, que as infecções continuadas com origem no sexo anal poderiam dar a impressão que um determinado microbicida vaginal é menos eficaz do que na realidade é. Pelo que pensam ser necessário estimativas mais rigorosas sobre as relações sexuais anais em ensaios sobre microbicidas, de forma a assegurar que os estudos têm poder estatístico.

Referências
Kalichman S et al. Heterosexual anal intercourse among community and clinical settings in Cape Town, South Africa. Sex Transm Infect (published online ahead of print), 2009.

Boily MC et al. The role of heterosexual anal intercourse for HIV transmission in developing countries: are we ready to draw conclusions? Sex Transm Infect (published online ahead of print), 2009.

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA