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Os seropositivos australianos têm com frequência células anais anormais e infecção com HPV associada a alto risco de cancro anal
Michael Carter, Monday, April 21, 2008
De acordo com um estudo australianos publicado na edição de Abril da revista Sexually Transmitted Infections, foram detectadas em cerca de dois terços dos doentes seropositivos para o VIH, de uma coorte australiana, células anormais no ânus e 84% dos doentes tinham uma infecção anal causada por estirpes do vírus papiloma humano (HPV) associadas a um alto risco de cancro anal.

Os investigadores descobriram que a infecção com HPV de alto risco estava relacionada com a presença de células pré-cancerosas de alto grau e de grau indeterminado, mas com um significado potencial de alto grau de malignidade.

A neoplasia do ânus é uma doença grave associada a altos níveis de morbilidade e de mortalidade. A prevalência do cancro anal entre os homens homossexuais parece ser semelhante à das mulheres antes de ter sido introduzido o rastreio sistemático do cancro do colo do útero (aproximadamente 35 casos por 100.000). Têm sido observadas percentagens mais elevadas neste tipo de pessoas seropositivas para o VIH, mas esta situação é, por enquanto, considerada rara.

Tanto o cancro anal como o do colo do útero têm sido relacionados com a infecção por determinadas estirpes de HPV. O teste de Papanicolau é usado, por rotina, como rastreio de alterações pré-cancerosas do colo do útero. Mas não se sabe qual o papel do rastreio do cancro anal e se tal aumenta a taxa de sobrevida.

Está, no entanto, bem estabelecido que o cancro anal localizado detectado num estádio precoce responde melhor ao tratamento do que o estádio mais avançado desta neoplasia, e alguns médicos e activistas dos tratamentos têm vindo a defender que os homossexuais deveriam ser rastreados com exames semelhantes ao teste de Papnicolau, no sentido de se despistarem células anormais no ânus.

Estudos realizados nos EUA sugerem que 93% dos homens homossexuais seropositivos para o VIH e 14% das mulheres infectadas por este vírus têm células anormais no ânus.

Os investigadores de Melbourne e Sydney, na Austrália, pretendiam verificar a percentagem de doentes seropositivos que apresentavam células anormais no ânus e que estavam infectados com estirpes de HPV de alto risco.
O estudo envolveu 126 doentes com idades compreendidas entre os 18 e 60 anos (média de idade, 45 anos), sendo a maioria homossexuais masculinos – 124 doentes (98%).

Os participantes apresentavam contagens de células CD4 acima das 300/mm3, sendo a média de 545 células/mm3. Dois terços dos doentes apresentavam carga viral indetectável. O diagnóstico de SIDA estava presente em um quarto dos doentes.

25% dos doentes tinha antecedentes de tratamento anal médico ou cirúrgico e 18% tinha sido submetido a remoção de condilomas anais.

Foi possível obter os resultados da citologia anal de 113 doentes e 85 (67%) apresentam células consideradas anormais. A maioria dos doentes, 106 (84%), tinha infecção anal com uma estirpe de HPV de alto risco e 79 destes doentes (74%) tinha células anais anormais.

Um total de 16 participantes (13%) apresentava células pré-cancerosas de alto grau (lesões epiteliais escamosas de alto grau) e em todos foi detectada infecção por estirpes de HPV consideradas de alto risco. Para além disto, em 13 doentes (10%) foram detectadas alterações celulares de significado indeterminado com possíveis alterações de alto grau de malignidade e 92% destes estavam igualmente infectados com as estirpes consideradas de alto risco.

Não se verificou qualquer associação entre a presença de células anais anormais e a idade, a contagem de células CD4, a carga viral ou um diagnóstico prévio de doença definidora de SIDA. No entanto, história prévia de tratamento de condilomas estava associada à presença de células anormais (p=0.04).

A análise estatística demonstrou que os doentes com estirpes de HPV de alto risco tinham maior probabilidade de apresentar células anais anormais (OR 5.03;95%IC: 1.45-17.39) e alterações celulares de alto grau ou potencialmente de alto grau (OR; 4.22; 95% IC: 0.766-78.89), quando comparados com os doentes que não apresentavam estirpes de HPV de alto risco, no ânus.

Esta análise demonstrou uma associação estatisticamente significativa entre as estirpes de HPV de alto risco e as alterações celulares anais pré-cancerosas de alto grau ou potencialmente de alto grau (p=0.029).

Os investigadores afirmam no seu artigo que “ a presença de uma citologia anal anormal esteve associada de forma significativa à infecção anal por estirpes de HPV de alto risco”. Mas acrescentam que “é de notar que as infecções anais com estirpes de HPV de alto risco eram igualmente comuns em pessoas onde não se detectaram anormalidades nos exames citológicos”.

Os autores sugerem que os programas de rastreio semelhantes aos usados na prevenção do cancro do colo do útero possam vir a beneficiar estes doentes com alterações anormais da citologia anal. Contudo, “é necessário perceber melhor a etiologia e o papel deste tipo de intervenção nesta situação, antes de introduzir este tipo de programas de prevenção”.

Aos doentes incluídos neste estudo foi dada a oportunidade de participarem num outro ensaio de investigação da potencial vacina terapêutica para a estirpe 16 do HPV.

Referência
Anderson J et al. Abnormal anal cytology in high-risk human papilloma virus infection in HIV-infected Australians. Sex Trasm Infect, online edition, April 1st, 2008.