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Conferência “Microbicidas 2008”: Microbicidas de terceira geração podem actuar como ‘vacina bacteriana’
Encontram-se neste momento em curso estudos de engenharia genética com bactérias que estão presentes naturalmente no meio vaginal, que têm como objectivo a produção de microbicidas contra o VIH. De acordo com uma comunicação feita na Conferência “Microbicidas 2008”, que teve lugar em Fevereiro último, em Nova Deli, na Índia, num desses estudos, a estratégia desenvolvida provou já ser eficaz na prevenção da infecção pelo VIH em macacos.
Qiang Xu, da companhia de ‘terapêutica bacteriana’ Osel Inc., na Califórnia, apresentou um panorama dos mais recentes progressos obtidos na produção do microbicida Cyanovirin-N pela bactéria natural Lactobacillus .
A Cyanovirin-N é uma proteína derivada originalmente de algas, que tem mostrado uma eficácia prometedora tanto como microbicida vaginal como rectal. Ela é, contudo, uma molécula de grandes dimensões, o que poderá tornar o seu desenvolvimento na forma de gel terapêutico proibitivamente dispendioso.
A equipa do Dr. Xu inseriu um gene no genoma da Lactobacillus jensenii 1153, uma variedade da bactéria natural que coloniza a vagina. Estas já conferem por si alguma protecção, ao gerarem peróxido de hidrogénio, substância que apresenta um efeito microbicida.
Os investigadores induziram a colonização da vagina de macacos rhesus fêmeas pelas bactérias modificadas (estes macacos albergam naturalmente lactobacilos), por cerca de dois meses. As experiências in vitro mostraram que a Cyanovirin-N produzida inibia o VIH CCR5-trópico, com um coeficiente inbitório de 50%, comparável à dos anti-retrovirais sistémicos.
São necessários mais estudos de forma a perceber se as bactérias colonizadoras conseguem produzir in situ a Cyanovirin-N necessária para obter um efeito microbicida. É também necessária mais investigação sobre novas técnicas de fermentação, com o objectivo de se produzir quantidades grandes de bactérias.
Inquirido sobre a possibilidade de escape das bactérias geneticamente modificadas, o Dr. Xu respondeu que estas podiam ser completamente eliminadas após um curto tratamento com o antibiótico azitromicina, e que não seriam capazes de sobreviver fora do corpo, na água ou no ar.
Outra estratégia inovadora consiste em alterar, por engenharia genética, inibidores do CCR5 naturais que actuam, tal como o maraviroc e o vicriviroc (substâncias desenvolvidas como fármacos inibidores do CCR5), através do bloqueio de uma molécula co-receptora, o CCR5, de que o VIH necessita para entrar nas células CD4.
O ligando natural (ou seja, a molécula que naturalmente se liga) do co-receptor CCR5 é a quimiocina RANTES, que actua como meio de mobilização das células imunitárias em caso de lesão ou infecção.
Devido, porém, à sua actividade imune e curta semi-vida, a RANTES não pode ser usada, em si mesma, como ferramenta terapêutica ou preventiva anti-VIH.
O Dr. Oliver Hartley, da Universidade de Genebra, na Suíça, tem vindo a trabalhar no desenvolvimento de um análogo, ou versão alterada da molécula, chamada PSC-RANTES, com vista a utilizá-la no tratamento ARV.
Esta molécula funcionaria induzindo os CD4s a inibir os seus receptores CCR5, ou seja, por outras palavras, arrastando as moléculas para o interior da superfície da célula, onde, dessa forma, já não podem actuar como quimiocinas ou receptores virais.
Em experiências com macacos, a PSC-RANTES mostrou conferir protecção contra a transmissão viral. Esta molécula (a PSC-RANTES), porém, também actua como uma substância sinalizadora do sistema imune (ela estimula a actividade imune), além de que seria impossível produzi-la em grandes quantidades de uma forma custo-eficaz.
O Dr. Hartley produziu uma variedade de outros análogos da RANTES e descobriu uma, a 5P12-RANTES, que pode, por métodos de fermentação, ser manufacturada em grandes quantidades. Ela actua como inibidora do CCR5, mas não induziu nem a inibição do CCR5, nem activação imune. A molécula mostra actividade equivalente à PSC-RANTES e, no modelo animal (macaco), quando aplicada topicamente como solução micromolar salina protegeu cinco em cada cinco macacos fêmea da infecção vaginal pelo vírus SIV.
Por fim, em experiências combinando as duas abordagens, o Dr. Luca Evangelista (do Instituto Científico San Raffaele, em Itália) manipulou através de engenharia genética os mesmos lactobacilli do estudo do Dr. Xu, de forma a produzir RANTES de tipo humano, encontrando-se actualmente a trabalhar noutra variante, de que resultará a produção de um análogo chamado C1C5-RANTES e também de pequenos péptidos – secções – derivados da RANTES, de forma a verificar se eles possuem actividade anti-VIH.
Referências
Xu Q. Development of a live topical microbicide for women. Microbicides 2008 Conference, Delhi. Abstract AO17-221. 2008.
Hartley O. Fully recombinant chemokine analogues provide complete protection in the macaque vaginal challenge model. Microbicides 2008 Conference, Delhi. Abstract AO21-286. 2008.
Vangelista L. Expression of RANTES derivatives in Lactobacilli: a novel strategy for the development of vaginal microbicides. Microbicides 2008 Conference, Delhi. Abstract AO18-235. 2008.
Tradução pelo Grupo Português de Activistas sobre Tratamentos de VIH/SIDA (GAT)
