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Contagens de CD4s inferiores a 500 aumentam o risco de cancro nas pessoas com VIH
De acordo com o estudo de um grupo de investigadores franceses publicado na edição online da revista The Lancet Oncology, de 8 de Outubro último, a manutenção de uma contagem de células CD4s acima das 500/mm3 protege as pessoas seropositivas para o VIH de um importante espectro de cancros definidores de SIDA e não-definidores de SIDA.
Os investigadores analisaram as taxas dos sete cancros mais comuns nas pessoas com VIH e descobriram que a contagem de células CD4 constituía o mais potente factor de risco para a maioria deles. A maioria dos participantes no estudo – que incluiu dados recolhidos entre 1998 e 2006 – encontrava-se a fazer terapêutica ARV (anti-retroviral).
“Os nossos resultados sugerem que a terapêutica ARV de combinação seria mais benéfica se restaurasse ou mantivesse a contagem dos CD4s acima das 500 células”, comentam os autores.
Se as actuais linhas de orientação terapêuticas recomendam que o tratamento ARV seja iniciado quando o valor das células CD4 se encontra em redor das 350, os achados do estudo francês agora em análise virão apoiar as opiniões dos clínicos que acreditam haver benefícios adicionais (de sobrevivência) se o tratamento for iniciado antes dos CD4s caírem para valores inferiores a 500.
A infecção pelo VIH está associada a um risco aumentado de desenvolvimento de vários cancros. Desde que a terapêutica ARV eficaz se tornou disponível, registaram-se descidas na incidência dos cancros definidores de SIDA sarcoma de Kaposi e linfoma não-Hodgkin; ao contrário, o número de casos de vários cancros não-definidores de SIDA tem vindo a aumentar.
Muitos destes cancros não-definidores de SIDA estão ligados a outras infecções, mas é pouco claro que papel desempenha a contagem de células CD4, a carga viral ou o uso da terapêutica ARV no desenvolvimento ou na prevenção de várias dessas neoplasias.
Foi, pois, neste contexto que um grupo de investigadores franceses foi examinar a base de dados VIH hospitalar francesa, com o objectivo de determinar a incidência dos sete cancros mais comuns nos doentes com VIH, bem como a sua relação com a contagem de células CD4, a carga viral e o uso de tratamento ARV.
Os cancros considerados foram o sarcoma de Kaposi, o linfoma não-Hodgkin, o linfoma de Hodgkin, o cancro do pulmão, do fígado, do colo do útero e anal.
Foram incluídos 52 278 doentes e 253 353 pessoas/ano na análise.
O tratamento ARV foi utilizado por 73% dos doentes, no período total abrangido pelo estudo, de 1998 a 2006.
O sarcoma de Kaposi foi o cancro mais diagnosticado (565 doentes, incidência de 2.32 por 100 pessoas/ano).
O seguinte foi o linfoma não-Hodgkin, diagnosticado em 511 doentes (incidência 2.09 por 100 pessoa anos), seguido do cancro do pulmão (207 casos, incidência 0.85).
Registaram-se ainda 149 casos de linfoma de Hodgkin (incidência 0.61), 119 de cancro do fígado (incidência 0.49), 74 casos de cancro anal (incidência 0.30) e 69 de cancro do colo do útero (incidência 0.93).
A maioria dos cancros desenvolveu-se aproximadamente seis a oito anos depois do diagnóstico de VIH. Contudo, tanto o cancro do fígado como o anal mostraram estar associados a uma maior duração do diagnóstico da infecção VIH, sendo diagnosticados em média dez anos depois do diagnóstico da infecção VIH.
As pessoas com diagnóstico de sarcoma de Kaposi e linfoma não-Hodgkin apresentavam um baixo nadir e uma baixa contagem actual de células CD4 (abaixo das 200 células/mm3). Além disso, embora metade dos doentes com diagnóstico destas duas neoplasias estivesse a receber tratamento ARV, a carga viral era elevada, sugerindo a presença de falência virológica frequente.
O tratamento ARV estava a ser usado por dois terços dos doentes com diagnóstico de cancros não definidores de SIDA, doentes que apresentavam uma contagem média de 244 células CD4/mm3 e uma carga viral média de aproximadamente 500 cópias/ml.
Quase todas as pessoas a quem foi diagnosticado cancro anal encontravam-se a fazer terapêutica ARV. Estes indivíduos tinham tido um nadir de 68 células/mm3 e um maior período com infecção diagnosticada (isto é, uma infecção já diagnosticada há bastante tempo). Tinham, além disso, apresentado uma contagem de CD4s abaixo das 200 células/mm3 durante uma média de dois anos e um ano com uma carga viral superior a 100 000 cópias/ml.
A contagem de células CD4 na altura do diagnóstico do cancro anal era, em média, de 276 células/mm3.
Os investigadores testaram também os factores de risco para todos os sete cancros, utilizando para tal 78 modelos estatísticos.
Estes modelos mostraram uma relação clara entre a contagem de CD4s e o desenvolvimento de todos os cancros, com excepção do anal. De facto, o risco de todos esses cancros encontrava-se significativamente aumentado nos doentes com uma contagem de células CD4 entre 350-499 /mm3, em comparação com os doentes com uma contagem superior a 500 células/mm3.
Uma carga viral elevada (acima das 100 000 cópias/ml) encontrava-se associada a um risco aumentado de cancros definidores de SIDA, enquanto o uso de terapêutica ARV – mesmo após se ter procedido ao estudo com controlo de factores como a resposta imunológica e virológica – foi considerado protector.
O risco de cancro anal aumentou em 30% por cada ano que um doente mantinha uma contagem de CD4s inferior a 200 células/mm3 (RR = 1.3; 95% IC, 1.2-1.5, p = 0.0001) e em 20% por cada ano que a carga viral se encontrava acima das 100 000 cópias/ml (RR = 1.2; 95% IC, 1.1-1.14, p =0.005).
A administração de terapêutica ARV reduziu o risco de cancro do colo do útero em 50% (RR = 0.5; 95% IC, 0.3-0.09, p = 0.03); uma contagem mais elevada de células CD4 demonstrou ter também este efeito, reduzindo significativamente o risco desta neoplasia (p = 0.0002).
“A imunodeficiência aumentou o risco de todos os cancros investigados”, escrevem os investigadores, que sugerem que “a deficiência imunitária prejudicaria a capacidade das células do hospedeiro de limitar a expansão das células tumorais ou a replicação viral”.
Os investigadores enfatizam que o pronto diagnóstico da infecção pelo VIH, bem como o início precoce da terapêutica ARV poderiam diminuir o risco de cancro. Finalmente, sugerem também que “deveria ser disponibilizado a todas as mulheres seropositivas o acesso a programas de rastreio do cancro do colo do útero; e que devem ser pensados programas de rastreio de outros cancros, como o do pulmão e o anal, para as pessoas com infecção por este vírus”.
Referência
Guiguet M et al. Effect of immunodeficiency, HIV viral load, and antiretroviral therapy on the risk of individual malignancies (FHDH-ANRS C04): a prospective cohort study. The Lancet Oncology (online edition), 2009.
Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA
Os investigadores analisaram as taxas dos sete cancros mais comuns nas pessoas com VIH e descobriram que a contagem de células CD4 constituía o mais potente factor de risco para a maioria deles. A maioria dos participantes no estudo – que incluiu dados recolhidos entre 1998 e 2006 – encontrava-se a fazer terapêutica ARV (anti-retroviral).
“Os nossos resultados sugerem que a terapêutica ARV de combinação seria mais benéfica se restaurasse ou mantivesse a contagem dos CD4s acima das 500 células”, comentam os autores.
Se as actuais linhas de orientação terapêuticas recomendam que o tratamento ARV seja iniciado quando o valor das células CD4 se encontra em redor das 350, os achados do estudo francês agora em análise virão apoiar as opiniões dos clínicos que acreditam haver benefícios adicionais (de sobrevivência) se o tratamento for iniciado antes dos CD4s caírem para valores inferiores a 500.
A infecção pelo VIH está associada a um risco aumentado de desenvolvimento de vários cancros. Desde que a terapêutica ARV eficaz se tornou disponível, registaram-se descidas na incidência dos cancros definidores de SIDA sarcoma de Kaposi e linfoma não-Hodgkin; ao contrário, o número de casos de vários cancros não-definidores de SIDA tem vindo a aumentar.
Muitos destes cancros não-definidores de SIDA estão ligados a outras infecções, mas é pouco claro que papel desempenha a contagem de células CD4, a carga viral ou o uso da terapêutica ARV no desenvolvimento ou na prevenção de várias dessas neoplasias.
Foi, pois, neste contexto que um grupo de investigadores franceses foi examinar a base de dados VIH hospitalar francesa, com o objectivo de determinar a incidência dos sete cancros mais comuns nos doentes com VIH, bem como a sua relação com a contagem de células CD4, a carga viral e o uso de tratamento ARV.
Os cancros considerados foram o sarcoma de Kaposi, o linfoma não-Hodgkin, o linfoma de Hodgkin, o cancro do pulmão, do fígado, do colo do útero e anal.
Foram incluídos 52 278 doentes e 253 353 pessoas/ano na análise.
O tratamento ARV foi utilizado por 73% dos doentes, no período total abrangido pelo estudo, de 1998 a 2006.
O sarcoma de Kaposi foi o cancro mais diagnosticado (565 doentes, incidência de 2.32 por 100 pessoas/ano).
O seguinte foi o linfoma não-Hodgkin, diagnosticado em 511 doentes (incidência 2.09 por 100 pessoa anos), seguido do cancro do pulmão (207 casos, incidência 0.85).
Registaram-se ainda 149 casos de linfoma de Hodgkin (incidência 0.61), 119 de cancro do fígado (incidência 0.49), 74 casos de cancro anal (incidência 0.30) e 69 de cancro do colo do útero (incidência 0.93).
A maioria dos cancros desenvolveu-se aproximadamente seis a oito anos depois do diagnóstico de VIH. Contudo, tanto o cancro do fígado como o anal mostraram estar associados a uma maior duração do diagnóstico da infecção VIH, sendo diagnosticados em média dez anos depois do diagnóstico da infecção VIH.
As pessoas com diagnóstico de sarcoma de Kaposi e linfoma não-Hodgkin apresentavam um baixo nadir e uma baixa contagem actual de células CD4 (abaixo das 200 células/mm3). Além disso, embora metade dos doentes com diagnóstico destas duas neoplasias estivesse a receber tratamento ARV, a carga viral era elevada, sugerindo a presença de falência virológica frequente.
O tratamento ARV estava a ser usado por dois terços dos doentes com diagnóstico de cancros não definidores de SIDA, doentes que apresentavam uma contagem média de 244 células CD4/mm3 e uma carga viral média de aproximadamente 500 cópias/ml.
Quase todas as pessoas a quem foi diagnosticado cancro anal encontravam-se a fazer terapêutica ARV. Estes indivíduos tinham tido um nadir de 68 células/mm3 e um maior período com infecção diagnosticada (isto é, uma infecção já diagnosticada há bastante tempo). Tinham, além disso, apresentado uma contagem de CD4s abaixo das 200 células/mm3 durante uma média de dois anos e um ano com uma carga viral superior a 100 000 cópias/ml.
A contagem de células CD4 na altura do diagnóstico do cancro anal era, em média, de 276 células/mm3.
Os investigadores testaram também os factores de risco para todos os sete cancros, utilizando para tal 78 modelos estatísticos.
Estes modelos mostraram uma relação clara entre a contagem de CD4s e o desenvolvimento de todos os cancros, com excepção do anal. De facto, o risco de todos esses cancros encontrava-se significativamente aumentado nos doentes com uma contagem de células CD4 entre 350-499 /mm3, em comparação com os doentes com uma contagem superior a 500 células/mm3.
Uma carga viral elevada (acima das 100 000 cópias/ml) encontrava-se associada a um risco aumentado de cancros definidores de SIDA, enquanto o uso de terapêutica ARV – mesmo após se ter procedido ao estudo com controlo de factores como a resposta imunológica e virológica – foi considerado protector.
O risco de cancro anal aumentou em 30% por cada ano que um doente mantinha uma contagem de CD4s inferior a 200 células/mm3 (RR = 1.3; 95% IC, 1.2-1.5, p = 0.0001) e em 20% por cada ano que a carga viral se encontrava acima das 100 000 cópias/ml (RR = 1.2; 95% IC, 1.1-1.14, p =0.005).
A administração de terapêutica ARV reduziu o risco de cancro do colo do útero em 50% (RR = 0.5; 95% IC, 0.3-0.09, p = 0.03); uma contagem mais elevada de células CD4 demonstrou ter também este efeito, reduzindo significativamente o risco desta neoplasia (p = 0.0002).
“A imunodeficiência aumentou o risco de todos os cancros investigados”, escrevem os investigadores, que sugerem que “a deficiência imunitária prejudicaria a capacidade das células do hospedeiro de limitar a expansão das células tumorais ou a replicação viral”.
Os investigadores enfatizam que o pronto diagnóstico da infecção pelo VIH, bem como o início precoce da terapêutica ARV poderiam diminuir o risco de cancro. Finalmente, sugerem também que “deveria ser disponibilizado a todas as mulheres seropositivas o acesso a programas de rastreio do cancro do colo do útero; e que devem ser pensados programas de rastreio de outros cancros, como o do pulmão e o anal, para as pessoas com infecção por este vírus”.
Referência
Guiguet M et al. Effect of immunodeficiency, HIV viral load, and antiretroviral therapy on the risk of individual malignancies (FHDH-ANRS C04): a prospective cohort study. The Lancet Oncology (online edition), 2009.
Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA
