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O tratamento com ISRSs melhora a adesão terapêutica e os resultados virológicos nos doentes VIH-positivos com depressão
De acordo com um estudo norte-americano publicado na edição de 1 de Março do Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes, os doentes seropositivos para o VIH com depressão apresentam uma adesão ao tratamento ARV (anti-retroviral) mais baixa que os doentes sem depressão.
O estudo também revelou que os doentes com depressão apresentavam uma probabilidade menor do que os doentes sem depressão de atingir, com o tratamento ARV, uma boa supressão do VIH.
Mas o estudo também mostrou que o tratamento com anti-depressivos da classe dos ISRSs (Inibidores Selectivos da Recaptação da Serotonina) apresentava vantagens, nomeadamente no aumento da adesão ao tratamento. Além disso, o tratamento com ISRSs mostrou aumentar as hipóteses de os doentes com depressão atingirem quer uma boa supressão viral, quer aumentos na contagem de células CD4.
O tratamento com ISRSs de doentes com depressão tem sido alvo, recentemente, de controvérsia, tendo sido sugerido que ele era apenas eficaz em doentes com depressão grave.
Os resultados deste estudo sugerem que a terapêutica com ISRSs pode ser também vantajosa para os cerca de 30% de doentes seropositivos com diagnóstico de depressão.
A adesão é o único factor importante sob controlo directo do doente que pode influenciar o sucesso da sua terapêutica ARV. As doenças mentais podem apresentar um impacto negativo sobre a adesão – considera-se, nomeadamente, que a depressão constitui um factor que aumenta o risco de não-adesão ao tratamento ARV.
A depressão atinge muitos doentes infectados com o VIH, tendo sido também associada a uma mortalidade precoce.
Os investigadores do presente estudo quiseram perceber se o uso de ISRSs aumentava a adesão ao tratamento ARV entre os doentes deprimidos. Também quiseram analisar se este tratamento anti-depressivo apresentava algum impacto sobre a carga viral e a contagem de células CD4.
Realizaram, por isso, um estudo retrospectivo, com doentes que haviam recebido o seu tratamento ARV através das clínicas Kaiser Permanente e da Group Health Cooperative, entre 2000 e 2003.
A análise dos investigadores incluiu 3359 doentes, dos quais 1398 (42%) apresentavam no registo médico um diagnóstico de depressão; destes doentes, 508 haviam recebido tratamento com um fármaco da classe dos ISRSs.
A adesão média de todos os doentes, ao longo de 12 meses, foi de 81%. Para os doentes não-depressivos a adesão média foi de 83%; nos doentes com depressão que não receberam tratamento com um ISRS, a adesão foi de 79%, uma diferença significativa (p=0,01).
Mas a adesão média para os doentes tratados com um ISRS foi de 81% (comparável à verificada em indivíduos não deprimidos), tendo sido de 85% entre os doentes que também apresentavam um boa adesão ao seu próprio tratamento com o ISRS – um valor significativamente melhor que o da adesão média verificada entre os doentes sem depressão (p=0,01).
Os investigadores observaram depois o impacto da depressão e do tratamento com ISRSs na carga viral e na contagem de CD4.
Descobriram que os doentes com depressão não tratados com ISRSs apresentavam uma probabilidade significativamente menor de atingir uma carga viral inferior a 500 cópias/ml, depois de um ano de tratamento ARV, do que os doentes não deprimidos (p=0,02).
Contudo, os doentes deprimidos tratados com ISRSs apresentavam uma probabilidade semelhante à dos doentes sem depressão de atingir estes resultados virológicos.
O conjunto total dos doentes apresentou um aumento médio do número de células CD4 de 152 células/mm3. Globalmente, não se registaram diferenças na subida das células CD4 entre os doentes deprimidos e os não deprimidos. Mas os investigadores descobriram que os doentes deprimidos com boa adesão ao ISRS não ganhavam apenas mais células que os outros doentes deprimidos, como aumentavam mais cerca de 19 células/mm3 do que os doentes que não estavam deprimidos, uma diferença considerada significativa (p=0,01).
Por fim, os investigadores foram estudar o efeito da terapêutica com ISRSs em doentes que mudaram de tratamento ARV. Nenhum destes doentes havia antes feito tratamento com ISRSs. A toma de um ISRS associada ao novo regime ARV não estava associada a melhor adesão, a um melhor controlo virológico ou a ganhos na contagem de células CD4.
“Demonstrámos que um diagnóstico de depressão está associado a uma adesão significativamente reduzida aos regimes de HAART”, comentaram os investigadores, acrescentando que “ a depressão estava associada a valores de probabilidade significativamente diminuídos de se atingir níveis de RNA do VIH inferiores a 500 cópias/ml.”
Os investigadores acreditam que, em doentes com depressão, outros factores além da adesão podem afectar a carga viral e sugerem que “a depressão, em si mesma, pode afectar o controlo viral. Esse controlo apresentava melhores valores entre os doentes medicados com ISRS, de uma forma tanto mais significativa se a adesão ao próprio tratamento com o ISRS fosse considerada”.
Os investigadores chamaram ainda a atenção para os aumentos na contagem de células CD4 registados nos doentes com boa adesão ao tratamento com ISRSs. “Estes resultados são particularmente importantes, uma vez que a depressão tem sido associada a uma mortalidade mais precoce nos doentes seropositivos”, acrescentam.
“Os nossos resultados têm implicações clínicas”, referem os investigadores, que recomendam que os doentes sejam rastreados para depressão e que os que apresentarem esta patologia sejam medicados com ISRSs, “pois uma boa adesão a um tratamento com ISRSs surgiu associada a uma melhor adesão à HAART e a melhores resultados laboratoriais no que se refere ao controlo da infecção pelo VIH”.
Referência
Horberg MA et al. Effects of depression and selective serotonin reuptake inhibitor use on adherence to antiretroviral therapy and on clinical outcomes in HIV-infected patients. J Acquir Immune Defic Syndr 47: 384 – 390, 2008.
Tradução pelo Grupo Português de Activistas sobre Tratamentos de VIH/SIDA (GAT)
O estudo também revelou que os doentes com depressão apresentavam uma probabilidade menor do que os doentes sem depressão de atingir, com o tratamento ARV, uma boa supressão do VIH.
Mas o estudo também mostrou que o tratamento com anti-depressivos da classe dos ISRSs (Inibidores Selectivos da Recaptação da Serotonina) apresentava vantagens, nomeadamente no aumento da adesão ao tratamento. Além disso, o tratamento com ISRSs mostrou aumentar as hipóteses de os doentes com depressão atingirem quer uma boa supressão viral, quer aumentos na contagem de células CD4.
O tratamento com ISRSs de doentes com depressão tem sido alvo, recentemente, de controvérsia, tendo sido sugerido que ele era apenas eficaz em doentes com depressão grave.
Os resultados deste estudo sugerem que a terapêutica com ISRSs pode ser também vantajosa para os cerca de 30% de doentes seropositivos com diagnóstico de depressão.
A adesão é o único factor importante sob controlo directo do doente que pode influenciar o sucesso da sua terapêutica ARV. As doenças mentais podem apresentar um impacto negativo sobre a adesão – considera-se, nomeadamente, que a depressão constitui um factor que aumenta o risco de não-adesão ao tratamento ARV.
A depressão atinge muitos doentes infectados com o VIH, tendo sido também associada a uma mortalidade precoce.
Os investigadores do presente estudo quiseram perceber se o uso de ISRSs aumentava a adesão ao tratamento ARV entre os doentes deprimidos. Também quiseram analisar se este tratamento anti-depressivo apresentava algum impacto sobre a carga viral e a contagem de células CD4.
Realizaram, por isso, um estudo retrospectivo, com doentes que haviam recebido o seu tratamento ARV através das clínicas Kaiser Permanente e da Group Health Cooperative, entre 2000 e 2003.
A análise dos investigadores incluiu 3359 doentes, dos quais 1398 (42%) apresentavam no registo médico um diagnóstico de depressão; destes doentes, 508 haviam recebido tratamento com um fármaco da classe dos ISRSs.
A adesão média de todos os doentes, ao longo de 12 meses, foi de 81%. Para os doentes não-depressivos a adesão média foi de 83%; nos doentes com depressão que não receberam tratamento com um ISRS, a adesão foi de 79%, uma diferença significativa (p=0,01).
Mas a adesão média para os doentes tratados com um ISRS foi de 81% (comparável à verificada em indivíduos não deprimidos), tendo sido de 85% entre os doentes que também apresentavam um boa adesão ao seu próprio tratamento com o ISRS – um valor significativamente melhor que o da adesão média verificada entre os doentes sem depressão (p=0,01).
Os investigadores observaram depois o impacto da depressão e do tratamento com ISRSs na carga viral e na contagem de CD4.
Descobriram que os doentes com depressão não tratados com ISRSs apresentavam uma probabilidade significativamente menor de atingir uma carga viral inferior a 500 cópias/ml, depois de um ano de tratamento ARV, do que os doentes não deprimidos (p=0,02).
Contudo, os doentes deprimidos tratados com ISRSs apresentavam uma probabilidade semelhante à dos doentes sem depressão de atingir estes resultados virológicos.
O conjunto total dos doentes apresentou um aumento médio do número de células CD4 de 152 células/mm3. Globalmente, não se registaram diferenças na subida das células CD4 entre os doentes deprimidos e os não deprimidos. Mas os investigadores descobriram que os doentes deprimidos com boa adesão ao ISRS não ganhavam apenas mais células que os outros doentes deprimidos, como aumentavam mais cerca de 19 células/mm3 do que os doentes que não estavam deprimidos, uma diferença considerada significativa (p=0,01).
Por fim, os investigadores foram estudar o efeito da terapêutica com ISRSs em doentes que mudaram de tratamento ARV. Nenhum destes doentes havia antes feito tratamento com ISRSs. A toma de um ISRS associada ao novo regime ARV não estava associada a melhor adesão, a um melhor controlo virológico ou a ganhos na contagem de células CD4.
“Demonstrámos que um diagnóstico de depressão está associado a uma adesão significativamente reduzida aos regimes de HAART”, comentaram os investigadores, acrescentando que “ a depressão estava associada a valores de probabilidade significativamente diminuídos de se atingir níveis de RNA do VIH inferiores a 500 cópias/ml.”
Os investigadores acreditam que, em doentes com depressão, outros factores além da adesão podem afectar a carga viral e sugerem que “a depressão, em si mesma, pode afectar o controlo viral. Esse controlo apresentava melhores valores entre os doentes medicados com ISRS, de uma forma tanto mais significativa se a adesão ao próprio tratamento com o ISRS fosse considerada”.
Os investigadores chamaram ainda a atenção para os aumentos na contagem de células CD4 registados nos doentes com boa adesão ao tratamento com ISRSs. “Estes resultados são particularmente importantes, uma vez que a depressão tem sido associada a uma mortalidade mais precoce nos doentes seropositivos”, acrescentam.
“Os nossos resultados têm implicações clínicas”, referem os investigadores, que recomendam que os doentes sejam rastreados para depressão e que os que apresentarem esta patologia sejam medicados com ISRSs, “pois uma boa adesão a um tratamento com ISRSs surgiu associada a uma melhor adesão à HAART e a melhores resultados laboratoriais no que se refere ao controlo da infecção pelo VIH”.
Referência
Horberg MA et al. Effects of depression and selective serotonin reuptake inhibitor use on adherence to antiretroviral therapy and on clinical outcomes in HIV-infected patients. J Acquir Immune Defic Syndr 47: 384 – 390, 2008.
Tradução pelo Grupo Português de Activistas sobre Tratamentos de VIH/SIDA (GAT)
