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No Canadá, a insegurança alimentar aumenta o risco de morte em doentes a fazer terapêutica anti-retroviral
O relatório publicado na edição on-line do Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes concluiu que em Vancouver, Canadá, doentes que tomam a terapêutica anti-retroviral e não têm segurança alimentar têm um risco aumentado de morte. Este risco de morte é particularmente elevado em pessoas com peso baixo.
“As nossas conclusões indicam que distribuir suplementos alimentares em conjunto com outras medidas que aliviem a pobreza deveria ser uma prioridade em relação às pessoas seropositivas para o VIH, que vivem em situação de pobreza em zonas urbanas com bons recursos.
Tem havido melhorias significativas na saúde e na esperança média de vida das pessoas que vivem com VIH, desde o aparecimento da terapêutica anti-retroviral eficaz. No entanto, alguns grupos de pessoas infectadas pelo VIH, tais como pessoas de comunidades minoritárias ou doentes com um historial de consumo de drogas ou álcool têm menor probabilidade de aceder ao tratamento e aos cuidados de saúde, o que se traduz em taxas mais elevadas de doenças e morte.
A insegurança alimentar é definida como “disponibilidade limitada ou incerta para obter alimentos nutricionalmente adequados ou incapacidade de obter pessoalmente alimentos de maneira socialmente aceitável.”
Esta situação tem sido associada aos piores resultados relacionados com diversas doenças. A insegurança alimentar também tem sido reconhecida como um factor que contribui para a transmissão do VIH em contextos de recursos limitados e que compromete os benefícios obtidos entre os indivíduos que vivem com VIH nesses países.
Além disso, a insegurança alimentar foi independentemente associada a uma carga viral detectável em doentes infectados pelo VIH em São Francisco. Contudo, a relação entre mortalidade e insegurança alimentar nos doentes com VIH em países industrializados nunca tinha sido investigada anteriormente.
Por conseguinte, os investigadores do British Columbia Centre for Excellence in HIV/AIDS Drug Treatment realizaram um estudo que envolveu 1 119 indivíduos.
Os doentes responderam a questionários (oito parâmetros) para avaliar a insegurança alimentar. A informação foi também recolhida através de mortes não acidentais.
Os investigadores avaliaram igualmente a relação entre insegurança alimentar, morte e índice de massa corporal e a análise estatística teve em conta uma série de possíveis factores de confusão, tais como a contagem de células CD4, o nível de educação, habitação e historial clínico do VIH.
Quase metade dos doentes (48%) relataram encontrar-se em situação de insegurança alimentar. As mulheres e indivíduos de descendência aborígene tinham maior probabilidade de relatar este problema que também foi associado aos jovens, a baixa contagem de células CD4, a elevada carga viral, aos poucos anos de tratamento para o VIH, à utilização de drogas via injectada, à baixa escolaridade e à instabilidade na habitação.
A adesão foi menor nos doentes que se encontravam em situação de maior vulnerabilidade do que entre os doentes que relataram encontrar-se em situação de segurança alimentar (62% não aderentes vs 38%). Além disso, a taxa de mortalidade atribuída a causas não acidentais foi duas vezes maior entre os doentes com insegurança alimentar, quando comparados com os indivíduos com boa alimentação (22% vs 11%).
Quando os investigadores tiveram em consideração possíveis factores de confusão, continuaram a concluir que os doentes que sofriam de insegurança alimentar tinham um aumento de 50% no risco de morte (razão de risco ajustado [AHR] = 1,51, 95% CI, 1,03-2,23).
Em seguida, os investigadores examinaram o papel desempenhado pelo baixo peso corporal. Relataram, após terem feito o controlo de todos os possíveis factores de confusão, que os doentes que sofriam de insegurança alimentar e de baixo peso (IMC inferior a 18,5 m2) tinham quase o dobro de probabilidade de morrer, em comparação com os doentes que não sofriam de insegurança alimentar nem de baixo peso (AHR = 1,94, 95% CI, 1,10-3,40).
Por fim, os investigadores concluíram que as taxas de mortalidade eram significativamente elevadas em doentes com insegurança alimentar que tinham baixo peso (p <0,008) e em doentes cuja alimentação não era adequada, mas que tinham um peso normal (p <0,001).
"Concluímos que os indivíduos a receber Terapêutica Anti-Retroviral altamente eficaz que estavam em situação de insegurança alimentar eram significativamente mais propensos a morrer de causas não acidentais, quando comparados com os indivíduos cuja alimentação era adequada", escrevem os investigadores.
Salientam que houve uma prevalência muito elevada de insegurança alimentar na população do estudo, o que significa que "os impactos negativos da insegurança alimentar na saúde são vividos por uma grande percentagem de pessoas pobres que vivem com VIH em zonas urbanas”.
Os investigadores concluem que as "novas intervenções para aliviar a insegurança alimentar e a pobreza entre os indivíduos que vivem em contextos urbanos com bons recursos são necessários para evitar a deterioração do estado clínico e o excesso de mortalidade".
Assim, recomendam que “os médicos que cuidam de pessoas infectadas pelo VIH poderão considerar trabalhar em equipas multidisciplinares que incluam gestores de caso e nutricionistas. Estas equipas poderão rastrear os indivíduos que se encontram em situação de insegurança alimentar e num estado nutricional pobre, averiguar quais as barreiras no acesso aos alimentos e ajudá-los a identificar meios fiáveis para ter acesso a alimentos de boa qualidade.”
Referência:
Weiser SD et al. The association between food insecurity and mortality among HIV-infected individuals on HAART. J Acquire Immune Defic Syndr (online edition), 2009.
Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA
“As nossas conclusões indicam que distribuir suplementos alimentares em conjunto com outras medidas que aliviem a pobreza deveria ser uma prioridade em relação às pessoas seropositivas para o VIH, que vivem em situação de pobreza em zonas urbanas com bons recursos.
Tem havido melhorias significativas na saúde e na esperança média de vida das pessoas que vivem com VIH, desde o aparecimento da terapêutica anti-retroviral eficaz. No entanto, alguns grupos de pessoas infectadas pelo VIH, tais como pessoas de comunidades minoritárias ou doentes com um historial de consumo de drogas ou álcool têm menor probabilidade de aceder ao tratamento e aos cuidados de saúde, o que se traduz em taxas mais elevadas de doenças e morte.
A insegurança alimentar é definida como “disponibilidade limitada ou incerta para obter alimentos nutricionalmente adequados ou incapacidade de obter pessoalmente alimentos de maneira socialmente aceitável.”
Esta situação tem sido associada aos piores resultados relacionados com diversas doenças. A insegurança alimentar também tem sido reconhecida como um factor que contribui para a transmissão do VIH em contextos de recursos limitados e que compromete os benefícios obtidos entre os indivíduos que vivem com VIH nesses países.
Além disso, a insegurança alimentar foi independentemente associada a uma carga viral detectável em doentes infectados pelo VIH em São Francisco. Contudo, a relação entre mortalidade e insegurança alimentar nos doentes com VIH em países industrializados nunca tinha sido investigada anteriormente.
Por conseguinte, os investigadores do British Columbia Centre for Excellence in HIV/AIDS Drug Treatment realizaram um estudo que envolveu 1 119 indivíduos.
Os doentes responderam a questionários (oito parâmetros) para avaliar a insegurança alimentar. A informação foi também recolhida através de mortes não acidentais.
Os investigadores avaliaram igualmente a relação entre insegurança alimentar, morte e índice de massa corporal e a análise estatística teve em conta uma série de possíveis factores de confusão, tais como a contagem de células CD4, o nível de educação, habitação e historial clínico do VIH.
Quase metade dos doentes (48%) relataram encontrar-se em situação de insegurança alimentar. As mulheres e indivíduos de descendência aborígene tinham maior probabilidade de relatar este problema que também foi associado aos jovens, a baixa contagem de células CD4, a elevada carga viral, aos poucos anos de tratamento para o VIH, à utilização de drogas via injectada, à baixa escolaridade e à instabilidade na habitação.
A adesão foi menor nos doentes que se encontravam em situação de maior vulnerabilidade do que entre os doentes que relataram encontrar-se em situação de segurança alimentar (62% não aderentes vs 38%). Além disso, a taxa de mortalidade atribuída a causas não acidentais foi duas vezes maior entre os doentes com insegurança alimentar, quando comparados com os indivíduos com boa alimentação (22% vs 11%).
Quando os investigadores tiveram em consideração possíveis factores de confusão, continuaram a concluir que os doentes que sofriam de insegurança alimentar tinham um aumento de 50% no risco de morte (razão de risco ajustado [AHR] = 1,51, 95% CI, 1,03-2,23).
Em seguida, os investigadores examinaram o papel desempenhado pelo baixo peso corporal. Relataram, após terem feito o controlo de todos os possíveis factores de confusão, que os doentes que sofriam de insegurança alimentar e de baixo peso (IMC inferior a 18,5 m2) tinham quase o dobro de probabilidade de morrer, em comparação com os doentes que não sofriam de insegurança alimentar nem de baixo peso (AHR = 1,94, 95% CI, 1,10-3,40).
Por fim, os investigadores concluíram que as taxas de mortalidade eram significativamente elevadas em doentes com insegurança alimentar que tinham baixo peso (p <0,008) e em doentes cuja alimentação não era adequada, mas que tinham um peso normal (p <0,001).
"Concluímos que os indivíduos a receber Terapêutica Anti-Retroviral altamente eficaz que estavam em situação de insegurança alimentar eram significativamente mais propensos a morrer de causas não acidentais, quando comparados com os indivíduos cuja alimentação era adequada", escrevem os investigadores.
Salientam que houve uma prevalência muito elevada de insegurança alimentar na população do estudo, o que significa que "os impactos negativos da insegurança alimentar na saúde são vividos por uma grande percentagem de pessoas pobres que vivem com VIH em zonas urbanas”.
Os investigadores concluem que as "novas intervenções para aliviar a insegurança alimentar e a pobreza entre os indivíduos que vivem em contextos urbanos com bons recursos são necessários para evitar a deterioração do estado clínico e o excesso de mortalidade".
Assim, recomendam que “os médicos que cuidam de pessoas infectadas pelo VIH poderão considerar trabalhar em equipas multidisciplinares que incluam gestores de caso e nutricionistas. Estas equipas poderão rastrear os indivíduos que se encontram em situação de insegurança alimentar e num estado nutricional pobre, averiguar quais as barreiras no acesso aos alimentos e ajudá-los a identificar meios fiáveis para ter acesso a alimentos de boa qualidade.”
Referência:
Weiser SD et al. The association between food insecurity and mortality among HIV-infected individuals on HAART. J Acquire Immune Defic Syndr (online edition), 2009.
Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA
