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Maior parte dos casos de hepatite C entre os homossexuais de Sidney relacionada com uso de drogas
Michael Carter, Monday, November 09, 2009
De acordo com um estudo publicado na edição online da Sexually Transmitted Infections, o uso de drogas injectáveis é o comportamento mais associado à infecção pelo vírus da hepatite C (VHC), tanto em homens homossexuais seronegativos como seropositivos para o VIH, em Sidney, na Austrália.

Os investigadores australianos também descobriram que a taxa da hepatite C era 10 vezes mais elevada nos homens seropositivos para o VIH do que nos seronegativos.

Embora não tivessem sido detectadas novas infecções pelo VHC em homens com VIH, verificaram-se 5 entre os homens VIH-negativos, tendo os investigadores descoberto que muitos destes homens tinham referido ter praticado sexo com um homem seropositivo ou a utilização de brinquedos sexuais, a prática de fisting ou a existência de infecções ulcerativas de transmissão sexual.

O VHC é um vírus transmitido através do sangue e o seu principal modo de transmissão é o uso de drogas injectáveis. Pensa-se que a transmissão do vírus por via sexual é rara. Têm-se registado contudo alguns surtos de hepatite C entre homens homossexuais seropositivos para o VIH, parecendo ser o sexo o modo mais provável de transmissão.

Parece que a actividade sexual que envolve contacto com sangue – como o fisting, o uso de brinquedos sexuais e o sexo anal desprotegido - está associada com a transmissão de hepatite C em homossexuais seropositivos para o VIH, em especial num contexto de uso recreativo de drogas e sexo em grupo.

Foi neste contexto e de modo a procurar compreender melhor o tipo de transmissão da hepatite C nos homossexuais masculinos que um grupo de investigadores australianos analisou os resultados de dois estudos – um envolvendo homens sem infecção pelo VIH, outro homens seronegativos – com vista a determinar, em particular, a prevalência, incidência e factores de risco para a hepatite C.

Populações dos estudos
Foram incluídos na análise um total de 1427 homens seronegativos (recrutados para o estudo Health in Men – HIM) e 245 homens seropositivos (do estudo Positive Health).

A informação do estudo HIM analisada dizia respeito ao período 2001-2007 e a do estudo Positive Health ao período 2005-2007.

Ambos os estudos puderam assim analisar os resultados dos testes para a hepatite C obtidos desde que a transmissão sexual da hepatite C entre os homossexuais seropositivos para o VIH se tornou aparente na Europa, por volta de 2002.

Uso de drogas injectáveis fortemente associado à hepatite C em homens seronegativos
À partida, 15 homens seronegativos estavam infectados pelo VHC, o que constituía uma prevalência de aproximadamente 1% - valor que é comparável ao valor verificado para a população em geral naquele país.

A hepatite C mostrou estar fortemente associada com o uso de drogas injectáveis (OR = 56.18; 95% IC 12.55-251.5). Apenas dois dos homens infectados com VHC não referiram este comportamento e os investigadores referem que esses homens tinham tatuagens e piercings, um modo possível de transmissão da hepatite C.

Outras características associadas com um maior risco de hepatite C à entrada no estudo eram grupos etários mais avançados, maior número de parceiros sexuais, início da prática de sexo anal em idades mais jovens e uma história de trabalho sexual.

Registaram-se cinco novos casos de hepatite C durante o estudo, configurando uma taxa de incidência de 0.11 por 100 pessoas/ano.

Apenas um dos novos casos referiu uso de drogas injectáveis.

Quatro deles (incluindo o homem com história de consumo de drogas injectáveis) afirmaram ter tido sexo com um homem seropositivo para o VIH antes da hepatite C.

No que se refere a outros factores sexuais de risco, foi referido sexo anal desprotegido por um homem, três referiram ter usado brinquedos sexuais e um referiu fisting. Sífilis e herpes genital foram cada uma delas referida por um indivíduo.

Prevalência elevada de hepatite C em homens gays seropositivos
A prevalência de hepatite C foi muito mais elevada na coorte de homens seropositivos para o VIH. À partida, 23 indivíduos apresentavam co-infecção, perfazendo uma prevalência de 9.39%. No que se refere às questões sobre uso de drogas injectáveis, 16 dos 18 homens que responderam referiram história desse consumo.

Apesar da epidemia de hepatite C transmitida por via sexual entre homossexuais seropositivos no norte da Europa, não se verificaram novas infecções com este vírus durante o follow-up, nesta coorte.

Os investigadores notam que os homens gays seropositivos para o VIH têm apresentado, historicamente, uma prevalência mais elevada de hepatite C do que os seus pares seronegativos. Por exemplo, numa coorte de Sideney, nos anos 80, 12% dos homens com infecção pelo VIH estavam também infectados com hepatite C; no caso dos homens sem esta infecção, esse valor era de apenas 4%.

Tendo embora sido baixa, a incidência do que parece ser hepatite C adquirida por via sexual por homossexuais masculinos seronegativos foi, em Sidney, maior do que a que tem sido referida numa série de outros estudos recentes.

O baixo número de infecções tornou a análise estatística difícil. Os investigadores notaram que dois dos homens recém-infectados que referiram sexo com um homem infectado pelo VIH apresentavam um diagnóstico de sífilis ou herpes genital. E sugerem, assim, que “como ambas são infecções de transmissão sexual ulcerativas, estes dados apontam para que a presença de úlceras possa ter facilitado a transmissão da hepatite C”.

“Nestas coortes de homossexuais altamente activos do ponto de vista sexual, a hepatite C era dez vezes mais comum nos homens seropositivos e estava relacionada com o uso de drogas injectáveis em cerca de 90% dos casos, tanto nos homens seronegativos como nos positivos”, comentam os investigadores.

Alguns factores de risco sexuais parecem terem estado envolvidos nas poucas novas infecções identificadas, e os investigadores concluem: “são necessários mais estudos, cuidadosamente desenhados, de forma a clarificar se a epidemia de hepatite C nos homossexuais masculinos em alguns locais pode ser atribuível à transmissão sexual ou a aumentos de outros factores de risco, como o uso de drogas injectáveis, a colocação de piercings ou tatuagens”.

Referência
Jin F et al. Prevalence, incidence and risk factors for hepatitis C in homosexual men: data from two cohorts of HIV negative and HIV positive men in Sydney, Australia. Sex Transm Infect (online edition), 2009.

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA