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A realização de testes rápidos em mulheres em trabalho de parto na Índia rural é viável
Derek Thaczuk, Monday, June 16, 2008
Um estudo sobre a utilização de testes rápidos de VIH, numa movimentada clínica de cuidados pré-natais, na zona rural da Índia, demonstrou que o programa pode ser bem implementado e tem como resultado a identificação dos casos de VIH em muitos locais onde as mulheres seropositivas ficariam por diagnosticar durante a gravidez e permite a prevenção da transmissão mãe-filho. O estudo foi apresentado (e acompanhado) por um editorial na edição de Maio da PLoS Medicine.

As mulheres representam cerca de 38% dos casos de VIH na Índia e cerca de 60% da população infectada pelo VIH encontra-se em áreas rurais. Uma grande parte das mulheres grávidas destas zonas rurais (talvez metade, segundo relatórios pouco fiáveis) não recebeu nenhum cuidado pré-natal, até à altura do parto.

Para além disto, apesar dos esforços desenvolvidos pela India's National AIDS Control Organization (NACO) para alargar os serviços de aconselhamento e teste voluntário (VCT- Voluntary Counselling and Testing), poucas mulheres efectuam o teste durante a gravidez. Um estudo recente (Sinha 2008) constatou que apenas 3,3% de uma amostra recente de mulheres grávidas, na zona rural do estado de Maharashtra, tiveram oportunidade de realizar VCT (desta amostra, a grande maioria através do sector privado e não do programa oficial NACO).

Neste estudo, uma equipa de investigadores do Canadá, da Índia e dos EUA avaliaram a adesão à realização do teste rápido para o VIH, durante um dia, numa clínica de cuidados pré-natais, na zona rural da Índia. Os objectivos da investigação consistiam em determinar se estes testes eram viáveis na definição clínica, se levariam a um aumento da adesão e se poderiam identificar mulheres em trabalho de parto a quem se pudesse proporcionar tratamento para evitar a transmissão mãe – filho (TMF).

Durante Janeiro e Setembro de 2006, 1 252 mulheres entre os 18 e os 45 anos de idade foram abordadas para dar o seu consentimento quando se apresentavam para realizar o parto no Mahatma Gandhi Institute of Medical Sciences, em Sevagram, no estado de Maharashtra. Diariamente, todas as admitidas na enfermaria obstétrica durante este período foram abordadas pelo obstetra ou por outros técnicos de saúde; nenhum caso elegível foi perdido (excepto exclusões devido a emergências obstétricas e mulheres com problemas de saúde mental).

A aceitação foi quase universal: 1 222 (98%) das mulheres aceitou realizar o VCT. As 30 (2%) que recusaram ou já sabiam os resultados através de testes anteriores ou não se consideravam como estando em risco.

A média de idade das 1 222 mulheres testadas foi de 24 anos, quase todas (99%) eram casadas e monogâmicas e 84% não tinham qualquer sintoma de doenças sexualmente transmissíveis. Cerca de 80% tinha, pelo menos, completado o liceu mas a maioria era pobre: para quase 90% das mulheres o rendimento mensal total do agregado familiar era inferior a 5000 rupias (cerca de 125 dólares americanos).

O algoritmo do teste para o VIH foi o seguinte: dois testes rápidos OraQuick, de aplicação diferente (um através de saliva e outro de uma picada no dedo). Os resultados do teste rápido OraQuick ficavam disponíveis em cerca de vinte minutos; os resultados eram confirmados por outro tipo de testes efectuados após recolha de sangue (ELISA para os resultados negativos dos testes rápidos; ELISA mais Western Blot para os testes rápidos com resultados positivos).

Das 1 222 mulheres testadas, 563 (46%) já tinham efectuado o teste para o VIH durante a gravidez, mas a maior parte (58%) não tinha conhecimento dos resultados e um grande número (219 das 563) tinha os resultados tão mal documentados (muitas vezes disponibilizado por pessoal não licenciado em clínicas privadas), que os resultados eram suspeitos. As restantes 659 (54%) nunca tinham efectuado o teste.

Quinze mulheres foram identificadas como seropositivas, dando uma taxa de prevalência de 1,23% (95% do intervalo de confiança [IC], 0.61-1.8%) – como antecipado por um estudo recente de vigilância pré-natal que previa uma taxa de 1%. Destes 15 casos, quatro tinham sido apresentados previamente com o estatuto de VIH positivo e só 11 tinham sido diagnosticados recentemente.

Todas, menos uma das 15 mulheres seropositivas, tinham recebido uma intervenção de prevenção de transmissão mãe-filho. Dois dos quinze bebés (ambos seropositivos para o VIH, confirmado por PCR – (polymerase chain reaction) nascidos destas mães morreram no espaço de um mês, os restantes 13, apresentaram resultados negativos para a infecção nos primeiros quatro meses de vida.

Os investigadores concluíram que "demonstraram a viabilidade e o impacto...dos testes rápidos para o VIH e das duas fases aconselhamento", resultando num "conhecimento bem documentado do estatuto serológico de mulheres seropositivas para o VIH que não tinham conhecimento prévio da infecção à data da admissão”, tendo sido igualmente possível fornecer intervenções de prevenção para a transmissão mãe-filho em mulheres seropositivas para o VIH.

David Celentano, o editor da PLoS, salienta que o processo, pelo qual esta intervenção realizada, foi tão importante quanto as suas próprias conclusões. O enquadramento temporal das actividades do estudo foi muito curto: cinco a dez minutos entre a determinação de elegibilidade e o consentimento do estudo, quinze minutos para o aconselhamento pré-teste (com uma segunda entrevista mais prolongada realizada pós-parto), vinte minutos para o algoritmo do teste rápido (a decorrer simultaneamente com outras actividades do estudo) e dez a quinze minutos entre o diagnóstico do VIH e a prestação do tratamento.

Celentano comenta ainda que: "É claro que o parto e a clínica oferecem a última oportunidade de detectar e prevenir a transmissão do VIH entre mãe-filho. O programa delineado por Pai e pelos colegas investigadores é eficiente, bem aceite e conduz a uma redução na morbilidade. Alargar este programa é, claramente, o próximo desafio… Sem estes programas eficazes, as mulheres não são testadas - uma situação inadmissível que é relativamente fácil de resolver neste momento. "

References:
Pai NP et al. Impact of round-the-clock, rapid oral fluid HIV testing of women in labor in rural India. PLoS Medicine 2008;5(5):e92.
Celentano DD. Is HIV screening in the labor and delivery unit feasible and acceptable in low-income settings? PLoS Medicine 2006;5(5):e107.