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Estudos sobre a prevenção do VIH em África: é importante perguntar sobre sexo anal
Michael Carter, Tuesday, April 15, 2008
Num artigo publicado na edição online da revista Sexually Transmitted Infections, os investigadores sugerem que as pessoas que participam em ensaios de prevenção de VIH, em África, deveriam ser questionadas sobre praticas de sexo anal. O estudo concluiu que 18% das mulheres que nele participaram tinham tido relações anais recentemente e que a maioria delas apresentavam infecções sexualmente transmitidas por via anal, não diagnosticadas.

Muitas vezes os estudos sobre comportamentos sexuais feitos em África omitem as questões relacionadas com o sexo anal e com o sexo entre os homens. Poderá haver um pressuposto que tal comportamento não é prevalente, ou que os próprios investigadores hesitem em perguntar sobre esse tipo de comportamento devido a uma sensibilidade em relação a tabus culturais e preconceitos. Estudos recentes indicam que as relações anais são comuns em África, tanto entre heterossexuais como entre homossexuais e são um meio importante de transmissão do VIH.

O estudo também demonstrou que muitas infecções sexualmente transmissíveis ficam por diagnosticar devido ao relato incompleto dos doentes e que um simples exame microscópico de amostras/esfregaços genitais e anais poderia levar ao diagnóstico de mais infecções.

Decorrem a nível global inúmeros estudos sobre a prevenção do VIH. Investigadores envolvidos num estudo em Mombassa, Quénia, quiseram demonstrar a importância de introduzir exames de saúde sexual de modo rotineiro, envolvendo testes laboratoriais básicos, e também, a importância de abordar as práticas de relações anais, de forma a poder oferecer os testes e os tratamentos adequados.

O estudo decorreu entre 2005 e 2007 e o recrutamento incluiu pessoas muito vulneráveis à transmissão VIH: 334 trabalhadoras do sexo; 316 homens que têm sexo com homens; 169 pessoas com múltiplos parceiros sexuais; 59 doentes com sintomas recentes de infecções sexualmente transmissíveis e 28 casais serodiscordantes.

Inicialmente, os investigadores não perguntaram sobre práticas de relações anais. Foi apenas em 2006, após o estudo estar a decorrer há um ano, que os investigadores passaram a incluir esta pergunta, após receberem relatos frequentes deste tipo de comportamento e de algumas pessoas apresentarem, no ânus, sintomas de infecções sexualmente transmissíveis.

Tornou-se claro, para os investigadores que estes não se poderiam basear apenas em relatos de sintomas para o diagnostico de infecções sexualmente transmissíveis. A maioria das mulheres com tricomoníase (60%, ou seja 20 de 32) não tiveram queixas e a infecção foi apenas diagnosticada após um exame microscópio de uma amostra genital. Das 13 mulheres com confirmação laboratorial de infecção pélvica, apenas 3 tinham sintomas.

Em simultâneo, 67% dos casos de uretrite foram diagnosticados após análise microscópica das amostras.

Outra descoberta importante no estudo foi a elevada prevalência de relações anais receptivas reportada em 36% dos homens que têm sexo com homens e em 18% das mulheres. As maiorias destas mulheres eram trabalhadoras sexuais (89%). Sintomas sugestivos de infecções anais foram descritos por um terço das pessoas que praticavam sexo anal receptivo. Um total de 69 doentes concordou em realizar um exame, utilizando um proctoscópio e 20% destes doentes apresentavam sinais visíveis de infecção, 20% sinais de inflamação e 7% úlceras. Após um exame microscópico de esfregaços rectais 7% dos participantes apresentavam uma proctite.

Entre os homens, o sexo anal receptivo foi fortemente associado à infecção pelo VIH (probabilidade ajustada de 3.8; 95% CI 2.0 – 6.9), no entanto, não se constatou o mesmo com as mulheres. Mas os investigadores observaram que dois terços dos casos de sífilis, em mulheres, foram reportados por aquelas que praticaram sexo anal (rácio ajustado 12,9;95% CI: 3.4-48.7).

Os investigadores também constataram que os homens infectados pelo VIH tinham maior probabilidade de apresentar úlceras ano-genitais, verrugas e uretrite. Nas mulheres, a infecção pelo VIH foi associada a verrugas ano-genitais e a doença inflamatória pélvica.

Segundo os investigadores, “visto que o sexo anal é comum nos adultos e apresenta risco, nós recomendamos que o despiste das infecções sexualmente transmissíveis inclua questões sobre relações anais receptivas e o diagnóstico de proctite, quando há sintomas”.

Os investigadores emitiram as seguintes recomendações no que diz respeito ao recrutamento de pessoas com comportamentos de risco, para estudos de prevenção do VIH, incluindo ensaios de vacinas.

  • Focar no comportamento de risco e não no grupo de risco

  • Testar as pessoas que referem recente actividade sexual anal para infecções de transmissão sexual e tratá-las adequadamente

  • Integrar rastreios de saúde sexual e respectivo tratamento pode reduzir o risco de infecção pelo VIH, podendo contribuir para melhorar o recrutamento nos estudos de prevenção, em locais com recursos limitados


Este estudo levanta questões importantes sobre o desenho e a robustez dos estudos sobre prevenção, realizados em África. Em particular, é notável que, apesar do recrutamento de homens que têm sexo com homens desde o início do estudo, o protocolo não abordava questões sobre sexo anal. Só depois de já estar a decorrer há um ano é que os relatos dos participantes sobre esta prática sexual levaram à mudança do protocolo e permitiram a inclusão de perguntas sobre relações anais.

A acrescentar, existe ainda relutância em alguns contextos africanos em saber a prevalência das relações anais, quer entre heterossexuais, quer entre homossexuais. Os investigadores acrescentam “ perguntas relativas à prática de sexo anal receptivo introduzidas recentemente num inquérito nacional no Quénia, foram rejeitadas por serem consideradas demasiado ofensivas…infelizmente, os dados sobre relações anais no Quénia permanecem desconhecidos”.

Reference: Grijsen MA et al. Screening for genital and anorectal sexually transmitted infections in HIV prevention trials in Africa. Sex Transm Infect: published online, March 28th, 2008.

Tradução pelo Grupo Português de Activistas sobre Tratamentos de VIH/SIDA (GAT)